Teste 1

Teste 1

sábado, 23 de outubro de 2010

SONETO À FLOR DOS TEUS SENTIDOS



Não lhe poderei dizer com firmeza,
Se nos poemas minha alma exponho;
A poesia é carne, caminho e sonho,
Em que todos têm a mesma beleza.

Alma que pode ser a tua ou a de um anjo,
Não a distingo de mim nem da canção;
Na poesia tenho mais de um coração
Que palpitam formando um belo arranjo.

Se disser que sou flor mesmo não sendo,
A verdade de outrem é meu rebento;
Pois eu digo: outras almas são minhas.

Contudo, se de mim duvidas tanto,
Se a ti provoco desmedido espanto,
Tenha fé, então, nas minhas entrelinhas.

(Luciene Lima Prado) 

SEM BELEZA

Vou assim:
De sobrancelhas sérias,
Lábios tímidos,
Roupa fechada
Em meu corpo invisível.

Vou sem esperar:
Beijo da estrela da sorte,
Toque suave dele,
Perspectivas,
Um copo de vinho,
Insônias.

Bem que eu queria:
Uma taça de vinho
Para minha vida minúscula;
Como um banho inteiro,
Um choque prolongado,
Um curto-circuito
Na minha existência supérflua.

Só uma gota de vinho: luz neon das idéias.

(Luciene Lima Prado)

sábado, 16 de outubro de 2010

NOVA ESTAÇÃO

Deixai-me derramar todo meu pranto
Para findar todo meu desencanto.

Amanhã não voltarei,
Contudo, estarei sorrindo.

Levo tudo o que hoje sei,
Menos o amor que está dormindo.

Enxugarei meus olhos ao vento,
Mas o vento ainda não vem.

(Luciene Lima Prado)

domingo, 10 de outubro de 2010

ÉBRIO

Palavras poucas, sentimento tanto...
E o vinho se perde dentro do corpo;
Faz do espírito um transeunte absorto
Ante a vida que se quebra de espanto.

Hão de surgir outros corpos, descalços:
Quem sabe, sem voz; quem sabe, poetas,
Em ideias embriagadas, mas diretas,
Com a certeza dos risos não falsos.

Num momento de confusa ressaca,
Quase morrer e esquecer-se do vinho,
Descobrir-se um ser escasso e sozinho.

Com um grito, cortar a dor que ataca,
Porção a porção, a existência doentia
Que, ainda infeliz, tem sua serventia.

(Luciene Lima Prado) 

O SER HUMANO É UM RIO

O ser humano é um rio
Por onde todas as coisas atravessam,
Um rio que ainda não encontrou o mar.

Por onde todas as coisas atravessam,
O ser humano se estende ao léu;
Ele é rio e transborda...

O ser humano se estende ao léu,
Correndo pleno, levando o mundo
Para o mar... Mas onde está o mar?

O ser humano é um rio
Que ainda não encontrou o mar.
Correndo pleno, levando o mundo,
Ele é rio e transborda...
Para o mar... Mas onde está o mar?

(Luciene Lima Prado)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

METAMORFOSE

Que diria eu a Gregor Samsa*,
Ao último adeus da esperança?

Culparia Kafka e todos os pensadores
Por terem se esquecido das flores.

Que diria eu a Gregor Samsa? O quê?
Que são de plástico as rosas do meu buquê?

Não me atreveria a matar inseto algum,
Pois carregam consigo nossa imagem em jejum.

Quiçá eu me calaria e tudo lhe diria num abraço,
Mas minhas falsas asas já não se abrem de cansaço.

(Luciene Lima Prado)

*Protagonista de “A metamorfose”, de Kafka.

Aos amigos que não me deixam desistir de escrever. Um abraço especial para minha colega de trabalho, Miralva.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

INCÓGNITA


O meu pranto não tem o gosto salgado;
Quem o prova somente o sente amargo,
De enredo denso a La Woolf ou Clarice,
A esperar doridamente a velhice.

Eu quero em desenredos me implodir,
Causar em mim bem mais que frenesi,
Trazer a mim as flores que não tenho,
Devagar desfazer este meu cenho.

Não choro de tristeza sob esta noite,
Presta atenção que sou o próprio lamento
Que amarga sem dó até o passivo vento.

Vou embora e deixo as vozes se trancando,
Atravessando Orlando e Macabea,
Manchando o poema que em mim estréia.

(Luciene Lima Prado)

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