sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SONETO EM AMARELO

Deixo-te a fragrância da erva-doce,
As sílabas aladas de um poema,
O conforto seco de uma novena;
Deixo-te tudo que comigo eu trouxe.

Quando nas tuas ideias flutuantes,
Vires minha silhueta no orvalho
Ou na grandiosidade de um carvalho,
Estarei no amor que tu me abranges.

Da ausência que me faz presente em ti,
Florescem surrealismos de Dali
Nos canteiros áuricos de Van Gogh.

Naquela tarde, adiante de um iogue,
Serei eu a retornar sobre os raios de sol,
Silenciosa como um caracol.

(Luciene Lima Prado)

PINGENTE

Mil sonhos no meio do caminho
De um poeta ou de uma moça sem flor,
Sob a chuva que tem gosto de “posso?”
Em todo caminho uma pedra,
Ainda que invisível;
Em todo verso, um Drummond,
Mesmo mudo.

(Luciene Lima Prado)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DIÁLOGO "INCORRESPONDIDO"

Troco meus rabiscos por tuas palavras desordenadas,
Que venha dar sentido ao meu fugidio pensamento.

       Palavras sem rumo, porém, encadernadas,
       Não as troco por teus rabiscos sem movimento.

Troco meus rabiscos pela incerteza de tuas palavras,
Para mim, são retas para meus pés tortos.

       Minhas palavras são dos meus vulcões as lavas,
       Que não as deixo ao toque dos teus lábios ignotos.

Troco este coração rabiscado num papel qualquer
Por esse teu texto sem vírgula ou ponto final.

       Não troco meu texto, misteriosa mulher,
       Por teu coração rabiscado com veneno mortal.

(Luciene Lima Prado) 
    

sábado, 23 de outubro de 2010

SONETO À FLOR DOS TEUS SENTIDOS



Não lhe poderei dizer com firmeza,
Se nos poemas minha alma exponho;
A poesia é carne, caminho e sonho,
Em que todos têm a mesma beleza.

Alma que pode ser a tua ou a de um anjo,
Não a distingo de mim nem da canção;
Na poesia tenho mais de um coração
Que palpitam formando um belo arranjo.

Se disser que sou flor mesmo não sendo,
A verdade de outrem é meu rebento;
Pois eu digo: outras almas são minhas.

Contudo, se de mim duvidas tanto,
Se a ti provoco desmedido espanto,
Tenha fé, então, nas minhas entrelinhas.

(Luciene Lima Prado) 

SEM BELEZA

Vou assim:
De sobrancelhas sérias,
Lábios tímidos,
Roupa fechada
Em meu corpo invisível.

Vou sem esperar:
Beijo da estrela da sorte,
Toque suave dele,
Perspectivas,
Um copo de vinho,
Insônias.

Bem que eu queria:
Uma taça de vinho
Para minha vida minúscula;
Como um banho inteiro,
Um choque prolongado,
Um curto-circuito
Na minha existência supérflua.

Só uma gota de vinho: luz neon das idéias.

(Luciene Lima Prado)

sábado, 16 de outubro de 2010

NOVA ESTAÇÃO

Deixai-me derramar todo meu pranto
Para findar todo meu desencanto.

Amanhã não voltarei,
Contudo, estarei sorrindo.

Levo tudo o que hoje sei,
Menos o amor que está dormindo.

Enxugarei meus olhos ao vento,
Mas o vento ainda não vem.

(Luciene Lima Prado)

domingo, 10 de outubro de 2010

ÉBRIO

Palavras poucas, sentimento tanto...
E o vinho se perde dentro do corpo;
Faz do espírito um transeunte absorto
Ante a vida que se quebra de espanto.

Hão de surgir outros corpos, descalços:
Quem sabe, sem voz; quem sabe, poetas,
Em ideias embriagadas, mas diretas,
Com a certeza dos risos não falsos.

Num momento de confusa ressaca,
Quase morrer e esquecer-se do vinho,
Descobrir-se um ser escasso e sozinho.

Com um grito, cortar a dor que ataca,
Porção a porção, a existência doentia
Que, ainda infeliz, tem sua serventia.

(Luciene Lima Prado) 

O SER HUMANO É UM RIO

O ser humano é um rio
Por onde todas as coisas atravessam,
Um rio que ainda não encontrou o mar.

Por onde todas as coisas atravessam,
O ser humano se estende ao léu;
Ele é rio e transborda...

O ser humano se estende ao léu,
Correndo pleno, levando o mundo
Para o mar... Mas onde está o mar?

O ser humano é um rio
Que ainda não encontrou o mar.
Correndo pleno, levando o mundo,
Ele é rio e transborda...
Para o mar... Mas onde está o mar?

(Luciene Lima Prado)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

METAMORFOSE

Que diria eu a Gregor Samsa*,
Ao último adeus da esperança?

Culparia Kafka e todos os pensadores
Por terem se esquecido das flores.

Que diria eu a Gregor Samsa? O quê?
Que são de plástico as rosas do meu buquê?

Não me atreveria a matar inseto algum,
Pois carregam consigo nossa imagem em jejum.

Quiçá eu me calaria e tudo lhe diria num abraço,
Mas minhas falsas asas já não se abrem de cansaço.

(Luciene Lima Prado)

*Protagonista de “A metamorfose”, de Kafka.

Aos amigos que não me deixam desistir de escrever. Um abraço especial para minha colega de trabalho, Miralva.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

INCÓGNITA


O meu pranto não tem o gosto salgado;
Quem o prova somente o sente amargo,
De enredo denso a La Woolf ou Clarice,
A esperar doridamente a velhice.

Eu quero em desenredos me implodir,
Causar em mim bem mais que frenesi,
Trazer a mim as flores que não tenho,
Devagar desfazer este meu cenho.

Não choro de tristeza sob esta noite,
Presta atenção que sou o próprio lamento
Que amarga sem dó até o passivo vento.

Vou embora e deixo as vozes se trancando,
Atravessando Orlando e Macabea,
Manchando o poema que em mim estréia.

(Luciene Lima Prado)

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